Falai-me da Primavera, «que só isso me interessa»

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Há muitos anos atrás, quando no âmbito do Projeto Aprender a Aprender, trabalhávamos com os professores numa abordagem biográfico-pedagógica, utilizávamos frequentemente a obra de Hubert Reeves, A hora do deslumbramento (editado pela Gradiva). No capítulo O parto do sentido, menciona a frase de Guy Béart – Falai-me de mim, só isso me interessa – como sendo «a receita da verdadeira pedagogia». 

Na verdade, se os nossos alunos, pudessem exprimir conscientemente o que gostariam de receber da nossa parte, professores, certamente diriam que lhes falássemos de si próprios: queremos saber quem somos, o que trazemos em nós que nos torna únicos, do que seremos capazes para sabermos para onde caminhamos… Na verdade os fundamentos da pedagogia Waldorf implicam um profundo conhecimento sobre quem somos e a sua finalidade é conduzir o ser humano a acordar para a sua entidade espiritual para mudar o mundo!

Mas vem isto a propósito da intenção deste meu contributo e da fonte que me inspirou o título: gostaria de vos falar sobre a Primavera, pois «só isso me interessa»!

Desde 13 de março, nos dias que vão correndo, que as minhas queridas companheiras de percurso da Escola do Jardim do Monte trabalham intensamente com os alunos e pais na concretização de Plano de Ensino à Distância, tentando manter a ligação que construíram com as crianças e famílias para que as perguntas primordiais, intrínsecas à natureza humana possam continuar a ser respondidas.

Por minha parte, em confinamento privilegiado, rodeada pela exuberância primaveril, fui-me habituando a «estar» neste espaço, na ausência de todos os que o tornaram numa escola.

Diariamente percorro as salas, vazias de gente, mas transbordando ainda os sentires que as habitaram, e em cada uma vislumbro as mãos que tocaram os objetos, os olhares que contemplaram os desenhos de quadro, que aí permanecem, esperando pelo amanhã, as flores que é preciso regar, as janelas que é preciso abrir, a brisa que entra descuidada, percorre o espaço, ondeando as cortinas, a vida que espera pela continuação da vida…

Sinto os odores que povoam a Primavera e saio, lembrando as crianças que corriam para o exterior, abraçando a natureza entre gritos e gargalhadas.

O verde veste todo o espaço! Ou melhor, infindos tons dessa extraordinária cor que nos fala da Terra, transportando miríades de encontros entre a luz e a sombra!

Subo a encosta devagar, amparando-me no rosmaninho que vai alto, com cuidado para não pisar as calêndulas que se espraiam rasteiras por entre a alfazema florida. As veredas, que nos vão indicando possíveis caminhos, quase desapareceram sob a euforia do crescimento. As árvores, no auge de novos rebentos, entrelaçam os ramos, algumas ainda no deslumbramento de se vestirem de frágeis pétalas que o vento faz delicadamente voar, criam pequenos refúgios de sombra e, de repente, eis que surge uma orquídea, e outra, e outra, olhando-me quase divertidas, do alto da perfeição que as torna únicas. Contemplo-as de perto: minúsculas formas que lembram insetos, simetricamente dispostas, na expetativa confiante que o fascínio das suas cores seduzirá qualquer olhar! E têm razão, olhá-las de perto é uma tentação que nos guia diariamente até ao espaço que ocupam, verticais na delicadeza do seu porte.

Chego à floresta e o quase silêncio anterior de repente preenche-se de sons que me obrigam a erguer o olhar: o canto de diferentes aves confunde-se com o seu esvoaçar em todas as direções. Reconheço rolas, pintassilgos, melros, piscos de peito ruivo, tentilhões e claro bandos de pardais apregoando um viver despreocupado que me faz sorrir… Como é fácil sentirmo-nos despreocupados, caminhando por entre verdes e chilreios, confortados pela frescura do ar que súbitos raios de sol penetram, abrindo pequenas nesgas de céu que logo se apagam no compacto de folhas que brilham, anunciando a luz que cobre a sombra da floresta. 

E, de repente, tudo se abre: chego ao topo, ao Rei da Montanha, assim nomeado pelas crianças desde que fizeram deste lugar uma escola. As árvores cedem generosamente o seu espaço a arbustos, onde o verde, rendido à luz se torna amarelo e mesmo branco nas flores que os cobrem e logo depois, acolhendo o seu calor, se revela no laranja quase vermelho de bagas que compõem o cenário.

Respiro, de novo acordada para o espaço à minha volta: a paisagem abre-se em verdes montes sob a imensidão do céu povoado pela brancura das nuvens que navegam sem destino, esfumando-se invisivelmente em novas formas que logo se esfumam de novo… Voam as andorinhas, rasando o cimo do monte, pois a elas, só lhes interessa a luz! Levada pelos seu esvoaçar olho no monte em frente a habitual serenidade das vacas que pastam, entregues à plenitude da vida que brota em seu redor. Mais além os cavalos que costumamos observar da escola, ora absortos, pastando, ora ocupados em correrias irreverentes que nos enchem o sentir de alegria… e de novo a despreocupação …

Contemplo o céu imenso que completa a existência da vida na Terra e Eu estou nela! Lembro-me da pergunta que o nosso falecido amigo Georg Külewind nos fez, quando pela primeira vez trabalhou connosco: O que está mais perto de mim? Levámo-la para a noite e, na manhã seguinte, ninguém conseguiu afinal responder! A resposta é simples: a minha ATENÇÃO! Muito mais tarde numa conferência de Steiner li que, em tudo o que eu olho, EU ESTOU: «O homem, como ser anímico-espiritual está realmente dentro daquilo que olha. A consciência do que se olha acontece porque o nosso organismo espelha nele a realidade olhada…. Somos parte do que olhamos…» (Occult Reading and Occult Hearing, p. 18,19). Daí que o mundo necessite do nosso olhar para ser revelado!

Ao ter mergulhado o meu olhar no esplendor primaveril, vivi o reflexo desse olhar no renascer da vida em cada parcela desse esplendor, no encantamento das suas formas, cores e movimentos. Mas, na verdade, no exato momento em que olhei, Eu penetrei o processo por detrás da realidade observada. No interior desse processo, o que nos é revelado é o início do perecimento e não da vida. Esta aconteceu no momento em que a semente, fecundada pela terra iniciou um novo ciclo de vida. O florescimento que nos rodeia neste momento em breve perecerá, ele é já o prenúncio do fim desse ciclo. O eclodir da vida acontece na escuridão da semente, que se abriga na escuridão da terra, onde o despertar do futuro está contido para o verdadeiro Renascer, a verdadeira Vida, graças à união entre o elemento espiritual do Sol e o Ser astral da Terra.  A exterioridade da Primavera pode ser na verdade a grande ilusão sobre a vida!

No Evangelho Segundo João, Steiner, na 13ª conferência (6 de julho de 1909), falando dos poderes luciféricos e arimânicos que penetraram na entidade humana, que nos levam a ver na realidade física a única realidade possível, e, consequentemente, ao esquecimento da origem espiritual de todo e qualquer fenómeno físico, alerta para a gravidade da ocorrência dessa verdade: o «engano a respeito das impressões exteriores do mundo sensorial… que devemos reconhecer como ilusão… e devemos aprender a ver a sua verdadeira forma por detrás dos aspetos exteriores.» 

No âmbito dessa ocorrência a morte física é a maior ilusão, para desfazer a qual se tornou necessário ter surgido o impulso crístico, ou seja, o padecimento da morte física por um ser espiritual e, portanto, inocente. Foi pelo seu sofrimento que se veio a revelar «o conhecimento da verdadeira forma da morte» que não é um perecimento, mas o recomeço da Vida no mundo espiritual: «Da mesma forma como a planta brota da semente, a vida brota da morte, que é uma semente da vida e não um elemento destruidor.»

A celebração da Páscoa ocorre sempre na Primavera. Para além da constatação temporal, a nível do decorrer do ano na Terra, outra constatação se revela que nos ajuda a viver a Primavera no seu significado cósmico. Para que Cristo viesse redimir a morte, foi preciso que ela tivesse surgido na Terra, contrariando aparentemente a imagem do Pai criador da Vida. Mas, na verdade, foi a partir da ilusão em que as forças luciféricas e arimânicas mergulharam a humanidade, que emergiu a necessidade de resgatar essa imagem, ou seja ressuscitar o princípio do Pai: a origem espiritual de todo e qualquer fenómeno físico.  

«Esta era a missão do Cristo sobre a Terra: substituir, através do acontecimento de Gólgota, a falsa figura da morte pela verdadeira», diz-nos Steiner. «O novo Sol da Vida jamais teria surgido, se a morte não houvesse vindo ao mundo, deixando-se vencer pelo Cristo.» Assim compreendemos que o Pai enviou o Filho para que este revelasse a sua verdadeira natureza, reacordando na memória dos homens o princípio do Pai. Assim adquire o seu significado cósmico a Páscoa ser celebrada na Primavera. Ao mergulharmos no seu esplendor, mergulhamos de novo no Espírito do Pai, subjacente a todos os fenómenos que a realidade sensorial nos oferece. 

O significado da meditação a fazer de manhã e à noite, que nos trouxe há alguns anos a Constanza Kaliks, adquire um significado muito especial: ao acordar para o mundo que me rodeia Eu, estando em tudo o que olho, estou no Pai; ao adormecer, afastada da realidade sensorial, o Pai está em mim, olhando Ele pela continuação da vida no meu corpo físico-etérico.

Termino com um apontamento que para mim, evidencia esse lento acordar na consciência da humanidade, para a existência do Espírito do Pai, resgatado pelo Filho que agora incorpora o Ser da Terra: 4ª feira, dia 22 de abril celebrou-se pela 50ª vez o Dia da Terra. Embora pouco se tenha falado nele, o seu significado não passou em vão para aqueles que cultivam esse lento acordar ao longo das suas vidas, na diária celebração da Terra. É o caso de Jane Goodall, a mulher que dedicou e ainda dedica a sua vida a OLHAR os chipanzés, partilhando a sua existência com esses seres, tornando-a numa forma de amor incondicional pela própria Terra. Apercebi-me que no canal National Geographic Magazine na noite de 22 havia um programa sobre o trabalho de Jane Goodall, como forma de marcar o Dia da Terra. Tive pois o privilégio de ver como um olhar constante e dedicado permitiu a essa mulher aperceber-se do divino no olhar desses irmãos-animais, (Steiner fala-nos dos animais mais próximos do homem, como almas que, na época da separação da Lua, buscaram demasiado cedo corpos para encarnar, fixando-se em formas demasiado rígidas) servindo-o tão plenamente que hoje, através desse servir, juntou centenas de pessoas a trabalhar para o mesmo fim de preservar a vida na Terra, com projetos reais que têm provocado modificações benéficas e essenciais em muitos pontos do globo.

Os tempos que vivemos são tempos de redenção, de cristificação da memória, de retorno ao Espírito do Pai que nos confiou a Terra. Será através dela que o futuro se cumprirá e assim se fará a sua vontade na Terra como no Céu.  O Calendário da Alma desta semana é disso testemunho: 

… «O mundo mostra-se por todo o lado

     Como divina imagem primordial

      De cuja verdade (Eu) sou reflexo.»

Leonor Malik

Maio 2020

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